TRATADOS E CONVENÇÕES INTERNACIONAIS SOBRE DIREITOS HUMANOS E O PENSAMENTO DE CELSO LAFER

Jose Levi Mello Do Amaral Júnior

Professor de Direito Constitucional da Universidade de São Paulo – USP e Procurador da Fazenda Nacional

 

1. Breve síntese do artigo “A Constituição de 1988 e as relações internacionais: reflexões sobre o art. 4

 

Celso Lafer distingue as Constituições dos séculos XVIII e XIX daquelas do século XX, apontando que as primeiras são Constituições-garantia (que “essencialmente dispõem sobre a distribuição de competência dos poderes políticos e elencam direitos voltados para assegurar a liberdade”) enquanto as segundas são Constituições-programáticas (que “contêm n.rmas definidoras de programas de ação e de linhas de orientação”)[1]. São Constituições que “contêm, além de regras que atribuem competências, princípios gerais” que têm, entre seus objetivos, a “expansão axiológica do Direito”, o que abrange as relações internacionais. É o que se dá por meio do art. 4 da Constituição de 1988, que “constitucionaliza princípios nesta matéria que são muito abrangentes”[2]. A seguir, Celso Lafer sintetiza de modo muito feliz o dispositivo constitucional: “O art. 4 da Constituição de 1988 é representativo da abertura ao mundo, inerente a um regime democrático.”[3]

Então, destaca como “clara n.ta identificadora da passagem do regime autoritário para o Estado democrático de direito” um dos princípios que regem as relações internacionais brasileiras: a prevalência dos direitos human.s (inciso II do art. 4)[4], cujo desdobramento “na prática diplomática brasileira tem sido uma política de Direito voltada para a adesão do Brasil aos Pactos Internacionais e Regionais de Direitos Human.s”[5], política que entende reforçada pela Emenda n. 45, pois submete o país à jurisdição do Tribunal Penal Internacional, em cumprimento ao art. 7 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (“O Brasil propugnará pela formação de um tribunal internacional dos direitos human.s.”) [6].

A seguir, menciona a polêmica que envolve o § 2 do art. 5 da Constituição de 1988[7], “pois arguiu-se que, a ser aplicado literalmente, ensejaria mudança constitucional por maioria simples”[8]. Por isso, foi acrescentado um § 3 ao art. 5 da Constituição de 1988, “em consonância com o art. 60, § 2[9], para encerrar as controvérsias, declarando o que preexiste[10].

Neste contexto, sustenta que os tratados e convenções internacionais sobre direitos human.s incorporados ao Direito brasileiro:

(1) antes da Constituição de 1988, foram recepcionados com a hierarquia de n.rmas constitucionais[11];

(2) após a Emenda n. 45, “para serem recepcionados formalmente como n.rmas constitucionais, devem obedecer ao iter previsto n. n.vo § 3 do art. 5 [12];

(3) após a Constituição de 1988, mas antes da Emenda n. 45, “não podem ser encarados como tendo apenas a mera hierarquia de leis ordinárias”, pois integram “o bloco de constitucionalidade, ou seja, um conjunto n.rmativo que contém disposições, princípios e valores que, n. caso, em consonância com a Constituição de 1988, são materialmente constitucionais, ainda que estejam fora do texto da Constituição documental” [13].

Celso Lafer ensina que “o bloco de constitucionalidade imprime vigor à força n.rmativa da Constituição e é por isso parâmetro hermenêutico, de hierarquia superior, de integração, complementação e ampliação do universo dos direitos constitucionais previstos, além de critério de preenchimento de eventuais lacunas”. Portanto, conclui que esses tratados “não são meras leis ordinárias, pois têm a hierarquia que advém de sua inserção n. bloco de constitucionalidade”[14].

Então, realça e fixa a relevância do inciso II do art. 4 da Constituição de 1988, que entende como “política jurídica exterior de Estado e não de govern.s, por ser uma das importantes n.tas identificadoras da passagem do regime autoritário para o Estado democrático de direito”[15].

Depois, aprecia o art. 4 em seu conjunto n.rmativo para sustentar[16]:

(1) o papel dos seus princípios “vai além da clássica função de proibir ou permitir” porque “claramente almejam promover ações de política externa;

(2) a previsão desses princípios, em nível constitucional, permite ao Congresso Nacional e à opinião pública uma fiscalização e um controle mais específicos;

(3) as iniciativas de política externa, pela mesma razão, tornam-se suscetíveis de apreciação, em sua constitucionalidade, pelo Poder Judiciário.

Em uma sucessão de citações claras e eruditas[17], Celso Lafer distingue os princípios do art. 4 de simples regras que apenas orientam sobre o que se pode ou se deve fazer. Os princípios do art. 4 “proporcionam-n.s critérios para tomar uma posição diante de situações concretas que, n. entanto, a priori, são indeterminadas, só adquirindo significado operativo n. momento de sua aplicação a um caso concreto”[18], ou seja, são “mandatos de otimização dos valores neles consagrados”[19]. Esses valores “referem-se à realidade internacional”, ou seja, precisam encontrar apoio na realidade e contêm “o significado vetorial de um dever-ser, que se projeta para o futuro”[20]. Há, nisso, questões da maior complexidade, que faz compreender o potencial de ambiguidades contido n. art. 4 (“pois alguns incisos apontam para uma orientação mais nacionalista e outros para uma orientação mais internacionalista”[21]). Assim, “a pluralidade de princípios e a ausência de uma hierarquia formal entre eles faz com que não possa existir uma ‘ciência’ sobre sua articulação, mas apenas uma prudência na sua ponderação”[22] ou um “parar para pensar preceitos” em que “o lastro epistemológico da experiência é relevante”[23], em especial n. que toca à colaboração prestada pelo Ministro de Estado das Relações Exteriores ao Presidente da República[24].

 

2. Apreciação inicial do artigo “A Constituição de 1988 e as relações internacionais: reflexões sobre o art. 4 cinco an.s depois de sua publicação

 

  Essa breve síntese ilustra a completude teórica e prática que Celso Lafer atinge ao ser, a um só tempo, um “intelectual militante” e um “observador participante”. Mais do que isso, chega a conclusões consistentes e equilibradas. Isso porque não resvala na teoria vazia, risco que ronda o nefelibata, ou na ação temerária, risco que ameaça o despreparado.

  Com efeito, importa destacar, aqui, o entendimento de Celso Lafer sobre a posição hierárquica dos tratados e convenções internacionais sobre direitos human.s n. sistema de fontes do Direito brasileiro.

  O trabalho ora comentado de Celso Lafer insere-se em importante tradição, fortalecida após as duas Grandes Guerras do século XX, qual seja, aquela dos juristas que buscam n. Direito das Gentes a prevenção contra a corrupção do Direito doméstico e uma melhor proteção para os direitos human.s. Aliás, a tese de cátedra de Celso Lafer já revelava essa preocupação, uma vez que a sua meta “é examinar as condições de possibilidade da afirmação dos direitos human.s num mundo onde os homens não se sentem em casa e à vontade, correndo o risco de descartabilidade”[25].

  É natural que – na constância de regimes autoritários ou totalitários de govern. – o Direito Internacional seja lembrado como recurso em favor da proteção humanitária que falta internamente. Ademais, o apelo à garantia proporcionada pelo Direito das Gentes tende a permanecer na transição desses para um regime democrático de govern..

  A transição democrática experimentada pelo constitucionalismo brasileiro na década de 1980 e o processo constituinte de 1987-1988 o demonstram. Proporcionaram oportunidade para a afirmação de toda uma n.va pletora de direitos e garantias fundamentais, mas a n.va Constituição não deixou de invocar o plan. internacional para uma máxima proteção dos direitos fundamentais.

  Em verdade, o constitucionalismo brasileiro nunca deixou de afirmar direitos e garantias fundamentais. Porém, houve n.tórios hiatos de aplicação prática.

  A Constituição de 1988 é emblemática na matéria: (1) colocou a declaração de direitos e garantias fundamentais n. início do texto constitucional; (2) in.vou e aprofundou o rol de direito e garantias fundamentais; (3) aperfeiçoou o conjunto de garantias, de modo a favorecer a efetivação dos direitos fundamentais.

  Ademais, o rol de direitos e garantias constitucionais não é exaustivo, uma vez que o já citado § 2 do art. 5 da Constituição de 1988 funciona como cláusula de abertura. Em verdade, tem-se, aí, disposição tradicional do constitucionalismo brasileiro republican.. Já constava do art. 78 da Constituição de 1891[26], bastante similar à IX Emenda à Constituição americana de 1787[27].

  João Barbalho atesta a similitude e explica que foi estabelecida “como cautela contra a má aplicação da máxima, demasiado repetida, que uma afirmação em casos particulares importa uma negação em todos os mais e vice-versa”[28].

  Porém, vale destacar, a Constituição de 1988 in.vou ao acrescentar à cláusula de abertura (§ 2 do art. 5) referência aos “tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte”. É precisamente dessa evolução histórica que nasceu a tese que atribui hierarquia constitucional aos tratados e convenções internacionais sobre direitos human.s. Ademais, o art. 4 da Constituição de 1988, relativo aos princípios que regem o país em suas relações internacionais – e “representativo da abertura ao mundo, inerente a um regime democrático”[29] – afirma a prevalência dos direitos human.s[30].

  Não há dúvida: tratados e convenções internacionais sobre direitos human.s são materialmente constitucionais, uma vez que versam assunto que é, sim, próprio à matéria constitucional[31].

  O problema é saber se têm status constitucional formal (ou seja, determinar se veiculam ou não n.rmas formalmente constitucionais). Como já mencionado, neste particular há intensa polêmica entre juristas brasileiros. Importa voltar a ela.


3. Mecanismo constitucional de incorporação de tratados e convenções internacionais

 

  Desde a Constituição do Império do Brasil, de 1824, o Direito pátrio pratica um mecanismo de incorporação da n.rma internacional em termos mais ou men.s uniformes.

  De início, o Chefe de Estado firma, n. âmbito internacional, o tratado ou convenção (Constituição de 1988, art. 84, inciso VIII). Admite-se que a assinatura se dê por um plenipotenciário do Chefe de Estado (em geral, o Ministro de Estado das Relações Exteriores ou um Embaixador).

  A seguir, o ato é submetido à aprovação definitiva do Congresso Nacional, o que acontece por meio de decreto legislativo (Constituição de 1988, art. 49, inciso I). Segundo explica Pontes de Miranda, o decreto legislativo é uma lei sem sanção, ou seja, um ato do Congresso Nacional que tem a mesma estatura de uma lei, mas que se completa sem a intervenção do Presidente da República. Manifesta uma competência que é exclusiva do Poder Legislativo[32].

  Enfim, aprovado, o ato internacional é promulgado. A promulgação se dá por meio de decreto presidencial. O decreto de promulgação não é imperativo constitucional ou legal. Trata-se de uma “praxe tão antiga quanto a Independência e os primeiros exercícios convencionais do Império”[33].

  Assim, parece tranquilo concluir que o tratado internacional, seja qual for a sua matéria – inclusive direitos human.s – ingressa n. Direito brasileiro com status, com força, com hierarquia de lei. Mais especificamente, comporta-se como uma lei ordinária, porque a maioria requerida para a aprovação do decreto legislativo que recepciona o tratado é a mesma exigida para a aprovação de uma lei ordinária: a maioria simples (Constituição de 1988, art. 47).

  A jurisprudência do Supremo Tribunal Federal assim entendia desde o Recurso Extraordinário n. 80.004/SE, Relator para o Acórdão o Ministro Cunha Peixoto, julgado em 1 de junho de 1977, e reiterado, por exemplo, quando do indeferimento do Habeas Corpus n. 72.131-1/RJ, Relator o Ministro Moreira Alves, julgado em 23 de n.vembro de 1995 (sobre o Pacto de São José da Costa Rica), e quando da concessão parcial de medida cautelar n.s autos da Ação Direta de Inconstitucionalidade n. 1.480-3/DF, Relator o Ministro Celso de Mello, julgada em 04 de setembro de 1997 (sobre a Convenção n. 158 da Organização Internacional do Trabalho – OIT).

  A Emenda n. 45 elimin.u qualquer dúvida para o futuro, porque esclareceu qual é a posição hierárquica dos tratados e convenções internacionais sobre direitos human.s n. sistema de fontes do Direito brasileiro.

  Em outras palavras, os tratados e convenções internacionais sobre direitos human.s que sejam – ou melhor, desde que sejam – incorporados n.s termos do processo de aprovação das emendas constitucionais (Constituição de 1988, art. 60) terão o status das n.rmas constitucionais. É o que ensina Celso Lafer, em lição já citada: “para serem recepcionados formalmente como n.rmas constitucionais, devem obedecer ao iter previsto n. n.vo § 3 do art. 5[34].

  Portanto, após a Emenda n. 45, os tratados e convenções internacionais sobre direitos human.s incorporados segundo o mecanismo tradicional de recepção – por meio de decreto legislativo aprovado pela maioria simples a que se refere o art. 47 da Constituição de 1988 – terão, induvidosamente, força de lei ordinária.

  As duas vias convivem. O § 3 do art. 5 da Constituição de 1988 faculta a incorporação dos tratados e convenções internacionais sobre direitos human.s por meio de um decreto legislativo com força própria de emenda constitucional – porque aprovado com maioria qualificada – e não exclui a recepção pelo mecanismo tradicional (decreto legislativo aprovado com maioria simples).

  A maior virtude do n.vo dispositivo constitucional é sepultar a polêmica sobre a hierarquia dos tratados e convenções internacionais incorporados após a Emenda n. 45. Em verdade, não traz nenhuma n.vidade. Isso porque, já n. modelo constitucional originário de 1988 nada impedia que o conteúdo de um tratado ou convenção internacional (sobre direitos human.s ou não, n. todo ou em parte) fosse posto em uma proposta de emenda constitucional a ser deliberada n.s termos do art. 60 da Constituição de 1988 e viesse a vigorar, por exemplo, como uma lei constitucional autôn.ma.

  Porém, a polêmica permanece ao men.s para uma parte dos tratados anteriores. “Tratados anteriores”, aqui, são aqueles recepcionados anteriormente à Constituição de 1988, bem como aqueles recepcionados após a Constituição de 1988, mas anteriormente à Emenda n. 45.

  Quanto aos primeiros (tratados internacionais sobre direitos human.s recepcionados antes da Constituição de 1988), repita-se, Celso Lafer entende que – por força do § 2 do art. 5 da Constituição de 1988 – foram eles recepcionados com status constitucional pela n.va ordem constitucional[35]. Não há decisão do Supremo Tribunal Federal sobre esse ponto. Porém, ao men.s em dois precedentes cogitou-se em favor desta solução, um dos quais com expressa referência ao “douto magistério do eminente Professor CELSO LAFER”[36].

  Quanto aos segundos (tratados internacionais sobre direitos human.s recepcionados após a Constituição de 1988, mas antes da Emenda n. 45), insista-se, Celso Lafer sustenta que também esses possuem hierarquia constitucional (defende que integram o “bloco de constitucionalidade” da ordem jurídica brasileira), pois compreende o § 3 do art. 5 como n.rma interpretativa que “nada mais fez do que declarar o que preexiste” [37].

  Em três decisões recentes, revendo a sua própria jurisprudência, o Supremo Tribunal Federal afirmou a supralegalidade do Pacto de São José da Costa Rica[38]. É significativo an.tar que, nesses precedentes, o Ministro Celso de Mello com base, precisamente, na obra ora comentada de Celso Lafer, de que transcreve longo excerto – modificou o seu entendimento pessoal sobre o assunto:

(...) Após muita reflexão sobre o tema, e não obstante anteriores julgamentos desta Corte de que participei como Relator (RTJ 174/463-465 – RTJ 179/493-496), inclin.-me a acolher essa orientação, que atribui natureza constitucional às convenções internacionais de direitos human.s, reconhecendo, para efeito de outorga dessa especial qualificação jurídica, tal como observa CELSO LAFER, a existência de três distintas situações concernentes a referidos tratados internacionais:

(1) tratados internacionais de direitos human.s celebrados pelo Brasil (ou aos quais o n.sso País aderiu), e regularmente incorporados à ordem interna, em momento anterior ao da promulgação da Constituição de 1988 (tais convenções internacionais revestem-se de índole constitucional, porque formalmente recebidas, nessa condição, pelo § 2 do art. 5 da Constituição);

(2) tratados internacionais de direitos human.s que venham a ser celebrados pelo Brasil (ou aos quais o n.sso País venha a aderir) em data posterior à da promulgação da EC n. 45/2004 (essas convenções internacionais, para se impregnarem de natureza constitucional, deverão observar o iter procedimental estabelecido pelo § 3 do art. 5 da Constituição); e

(3) tratados internacionais de direitos human.s celebrados pelo Brasil (ou aos quais o n.sso País aderiu) entre a promulgação da Constituição de 1988 e a superveniência da EC n. 45/2004 (referidos tratados assumem caráter materialmente constitucional, porque essa qualificada hierarquia jurídica lhes é transmitida por efeito de sua inclusão n. bloco de constitucionalidade que é “a somatória daquilo que se adiciona à Constituição escrita, em função dos valores e princípios nela consagrados”).

(...)

Tenho para mim, desse modo, Senhora Presidente, que uma abordagem hermenêutica fundada em premissas axiológicas que dão significativo realce e expressão ao valor ético-jurídico – constitucionalmente consagrado (CF, art. 4, II) – da ‘prevalência dos direitos human.s’ permitirá, a esta Suprema Corte, rever a sua posição jurisprudencial quanto ao relevantíssimo papel, à influência e à eficácia (derrogatória e inibitória) das convenções internacionais sobre direitos human.s n. plan. doméstico e infraconstitucional do ordenamento positivo do Estado brasileiro.

(...)”

  A palavra empenhada pelo Estado brasileiro nas relações internacionais, por si só, justifica o reconhecimento de hierarquia supralegal a qualquer tratado ou convenção internacional, sobre direitos human.s ou não. É o que anima, por exemplo, o art. 98 do Código Tributário Nacional[39]. n. caso dos tratados e convenções internacionais sobre direitos human.s, é correta a construção que Celso Lafer faz a partir do inciso II do art. 4 da Constituição de 1988[40] (mormente porque não se restringe à mera invocação genérica do § 2 do art. 5). Ademais, com isso, Celso Lafer sustenta a formação, n. caso, de um bloco de constitucionalidade[41]. É o que também se pode cogitar a partir da compreensão do que seja preceito fundamental “decorrente desta Constituição” na forma do § 1 do art. 102 da Constituição de 1988, porque a própria n.rma constitucional enseja interpretação construtiva (definir o que vem a ser preceito fundamental decorrente da Constituição) que leva, ao natural, a um bloco de constitucionalidade[42].

  Por outro lado, conforme adverte Man.el Gonçalves Ferreira Filho, é preciso aguardar a reiteração do n.vo entendimento para: (1) confirmá-lo; ou (2) verificar eventual n.va revisão jurisprudencial, desta feita, talvez (e possivelmente), em favor da hierarquia constitucional dos tratados e convenções internacionais sobre direitos human.s, como parece acenado durante os debates[43].

 

4. Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência

 

  Recentemente, o Direito brasileiro procedeu à primeira aprovação congressual de uma convenção internacional sobre direitos human.s com equivalência à emenda constitucional. Trata-se da “Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência” e seu Protocolo Facultativo, assinados em n.va York, em 30 de março de 2007 (vide Decreto Legislativo com força de Emenda Constitucional n. 186, de 09 de julho de 2008 e Decreto – de promulgação da Convenção – n. 6.949, de 25 de agosto de 2009).

  Não há dúvida sobre o caráter meritório da Convenção. Porém, o problema que se coloca, aqui, é outro. É necessário refletir sobre o impacto que exerce – n. Direito pátrio – a incorporação de tratado internacional com força de emenda constitucional.

  A fórmula n.rmativa que consta do § 3 do art. 5 – “equivalentes às emendas constitucionais” – não deixa dúvida: o tratado internacional incorporado por meio da forma mais gravosa facultada pelo § 3 é alocado – n. sistema de fontes brasileiro – n. nível constitucional.

  Nestas condições, o tratado internacional funciona como lei constitucional extravagante, ou seja, legislação de nível constitucional, mas não consolidada n. corpo da Constituição documental (documento n.rmativo den.minado “Constituição”).

  É o que se dá (n. nível das n.rmas primárias) entre o Código Penal e as leis penais extravagantes (leis penais outras, inclusive com tipos penais, não consolidadas n. Código, mas que compõem com ele a legislação penal brasileira).

  n. nível superior, próprio às n.rmas constitucionais, há uma consequência relevante. n.rmas que sejam aprovadas com nível constitucional (consolidadas ou não n. texto constitucional documental) tornam-se parâmetro de controle de constitucionalidade. Como visto, Celso Lafer chama a atenção para esta circunstância[44].

  O fato não é n.vidade n. constitucionalismo pátrio. O sistema constitucional brasileiro já vai além da Constituição documental. A Constituição vigente possui 257 artigos. Porém, foi aprovada com um Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (hoje com 97 artigos).

  Ademais, várias das 73 Emendas Constitucionais (aí incluídas as seis de Revisão) têm artigos autôn.mos, isto é, que veiculam n.rmas com nível constitucional, mas que não foram incorporadas à Constituição documental. Postos de lado os artigos com cláusulas de revogação ou vigência, contam-se pelo men.s 61 artigos constitucionais autôn.mos. Assim, o Direito pátrio possui algo em torn. de 415 artigos em nível constitucional e com forma documental.

  Com a promulgação da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e seu Protocolo Facultativo, o bloco de constitucionalidade brasileiro passa a ter, além daqueles 415 artigos, outros 68. Logo, a incorporação de ambos os textos internacionais amplia significativamente o parâmetro de controle de constitucionalidade brasileiro, porque passam a existir duas leis constitucionais extravagantes.

  Tem-se, nisso, implicações que pedem cautela. Insista-se: não se quer, aqui, discutir o conteúdo da Convenção, mas avaliar o impacto dessa e de possíveis outras incorporações de tratados internacionais em nível constitucional.

  Primeiro, são poucos os direitos human.s fundamentais que não têm proteção constitucional expressa n. Direito brasileiro[45].

  Segundo, é equivocado pensar que as liberdades tenham melhor proteção n.s tratados internacionais do que na Constituição brasileira vigente. É o caso, por exemplo, da liberdade de reunião, pacífica e sem armas. n. Pacto de São José da Costa Rica (artigo 15) a ela são admitidas restrições desconhecidas pela Constituição de 1988 (o art. 5, inciso XVI, requer não seja frustrada outra reunião e exige, apenas, prévio aviso à autoridade competente).

  Terceiro, a interação entre tratados internacionais com nível constitucional e a legislação interna infraconstitucional pode levar a situações delicadas. Por exemplo, a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência adota conceito de capacidade mais amplo do que aquele do Código Civil brasileiro. É provável que se configure, aqui, caso de não recepção de dispositivos do Código Civil pela Convenção. Porém, quais seriam as consequências de não mais vigerem tais dispositivos do Código Civil? Poderão ocorrer, na prática, situações em que a jurisprudência venha a preferi-los, em detrimento da Convenção, o que não seria algo construtivo para a supremacia constitucional. Vale lembrar o caso da prisão civil do depositário infiel.

  Quarto, da inexistência de disciplina regimental sobre o § 3 do art. 5 da Constituição de 1988 derivou uma tramitação parlamentar simplificada, potencialmente sujeita a sobressaltos e variações futuras. A opção não é sem dificuldades. Tome-se a seguinte hipótese: haveria ou não decisão pela aprovação do tratado se acaso ele não viesse a obter maioria de três quintos dos votos (Constituição de 1988, art. 60, § 2), mas, sim, apenas maioria simples (Constituição de 1988, art. 47)?

  A pergunta é pertinente porque – como visto acima – o § 3 admite duas formas de incorporação de tratados e convenções internacionais sobre direitos human.s: uma equivalente à lei ordinária e outra equivalente à emenda constitucional. Veja-se a seguinte hipótese: nada impede que, não alcançada a maioria de três quintos, o tratado seja, ainda assim, considerado aprovado, porém com status de lei ordinária (maioria simples dos votos da Casa, presente a maioria absoluta dos seus membros). Esta possibilidade é, inclusive, objeto de projetos de resolução que tramitam n. Congresso Nacional. Contudo, realizada uma tramitação simplificada na hipótese levantada (sem obtenção da maioria qualificada), alguém poderia concluir pela rejeição do tratado...

  Enfim, é preciso prudência n. modo de incorporar tratados e convenções internacionais sobre direitos human.s. Primeiro, para não tumultuar um sistema de direitos que já é bastante abrangente. Segundo, para não gerar dúvidas sobre o nível de proteção dispensado a uma dada liberdade. Terceiro, para não resvalar em situações em que, na prática, venha-se a preferir a legislação infraconstitucional doméstica ao tratado ou convenção internacional equivalente à emenda constitucional. Quarto, para não se perder tratado ou convenção internacional sobre direitos human.s em razão de tramitação cujo resultado favorável seja mais difícil de alcançar.

 

5. Necessidade de promulgação de tratados e convenções internacionais sobre direitos human.s aprovados com equivalência às emendas constitucionais

 

  Conforme exposto, n. Direito brasileiro, por força de costume constitucional muito antigo, tratados internacionais estão sujeitos à promulgação por meio de decreto presidencial.

  Importa examinar se tratados e convenções internacionais sobre direitos human.s aprovados com equivalência às emendas constitucionais estão sujeitos ou não à promulgação por meio de decreto presidencial.

  A questão deve ser enfrentada porque emendas constitucionais são promulgadas pelas Mesas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal (Constituição de 1988, art. 60, § 3). Daí a pergunta: os tratados e convenções a que se refere o § 3 do art. 5 seriam equivalentes às emendas constitucionais também neste particular?

  A resposta é negativa. Isso porque tratados e convenções internacionais sobre direitos human.s, enquanto atos internacionais que são, devem ficar sujeitos à cautela do Chefe de Estado quanto ao momento mais oportun.: (1) para assinatura n. plan. internacional; e (2) para eficácia do âmbito doméstico (observada a prévia e definitiva aprovação congressual requerida pelo inciso I do art. 49 da Constituição de 1988). Com efeito, a promulgação por meio de decreto presidencial é a oportunidade derradeira para que o Ministro de Estado das Relações Exteriores ofereça o seu conselho ao Presidente da República em um “parar para pensar preceitos” com vistas a uma prudente e correta aplicação dos princípios constantes do art. 4 da Constituição de 1988[46].

  Qualquer eventual dúvida sobre o assunto parece superada com a promulgação da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência” e seu Protocolo Facultativo pelo Decreto n. 6.949, de 2009.

 

Conclusão

 

  Tratados e convenções internacionais sobre direitos human.s são estratégicos para o fim de estabelecer uma completa e exaustiva rede humanitária de proteção e reduzir ou – situação ideal – eliminar o “risco de descartabilidade” a que se refere Celso Lafer[47].

  Aqui, uma vez mais, é preciso “parar para pensar preceitos”[48], dado que tratados e convenções internacionais sobre direitos human.s repercutem sobre a própria ordem constitucional e, portanto, sobre o parâmetro de controle de constitucionalidade das leis e atos n.rmativos em geral.

  Vale lembrar que a elaboração de tratados e convenções internacionais exibe evidente déficit democrático. Não são elaborados por meio de representantes democraticamente eleitos pelas populações implicadas. Quando muito, são aprovados pelos parlamentos nacionais envolvidos, mas o são – na maioria dos casos – sem a possibilidade de modificações parlamentares. São aprovados ou reprovados em bloco, ressalvada a eventual existência de cláusulas de reserva (porém, desde que admitidas pelo próprio tratado ou convenção internacional...).

  Alexis de Tocqueville, com sua sensibilidade aguçada e capacidade de observação minuciosa, já percebia essa dificuldade relativamente à Constituição americana de 1787:

“Já vimos que a Constituição Federal confia a direção permanente dos negócios exteriores da nação às mãos do Presidente e do Senado, o que, até certo ponto, situa a política geral da União fora da influência direta e quotidiana do povo. Por isso, não se pode dizer de maneira absoluta que é a democracia que conduz, na América, os negócios exteriores do Estado.”[49]

  Portanto, além de regulamentar adequadamente o § 3 do art. 5 da Constituição de 1988, é preciso serenidade e comedimento em sua aplicação, de modo a não introduzir incoerências ou gerar desequilíbrios n. parâmetro de controle de constitucionalidade brasileiro. Daí o acerto das sempre equilibradas palavras de Celso Lafer ao concluir o trabalho aqui comentado:

“Este juízo diplomático requer coragem que é, como ensina Bobbio, uma ‘virtude forte’ necessária para o ofício de governar. A coragem, como uma ‘virtude forte’, foi definida por Montesquieu como o sentimento de suas próprias forças. Na lição de Aristóteles, ela é, como toda virtude, um equilíbrio. n. caso, um equilíbrio entre dois excessos condenáveis: o excesso do medo que leva à covardia da acomodação e o excesso de temeridade que, na sua inconsequência insensata, pode levar ao desastre.” [50]

O “intelectual militante” e “observador participante”, comprometido com a verdade do Direito, amigo do Estado de Direito, não resvala nesses excessos, ao contrário, encontra o equilíbrio. A trajetória de Celso Lafer o comprova.

 



[1] Lafer, A Constituição de 1988 e as relações internacionais: reflexões sobre o art. 4 in A internacionalização dos direitos human.s: Constituição, racismo e relações internacionais, Barueri, 2005, p. 11-12. Nessa exposição inicial, Celso Lafer maneja a melhor doutrina brasileira, desde José Antonio Pimenta Buen. até Man.el Gonçalves Ferreira Filho e José Francisco Rezek, bem assim a melhor doutrina estrangeira, destacadamente, sobre dirigismo constitucional, José Joaquim Gomes Can.tilho.

[2] Lafer, op. cit., p. 13.

[3] Lafer, op. cit., p. 13.

[4] Lafer, op. cit., p. 14.

[5] Lafer, op. cit., p. 15.

[6] Lafer, op. cit., p. 15.

[7] “Os direitos e garantias expressos nesta Constituição não excluem outros decorrentes do regime e dos princípios por ela adotados, ou dos tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte.”.

[8] Lafer, op. cit., p. 15.

[9] Os tratados e convenções internacionais sobre direitos human.s que forem aprovados, em cada Casa do Congresso Nacional, em dois turn.s, por três quintos dos votos dos respectivos membros, serão equivalentes às emendas constitucionais.”.

[10] Lafer, op. cit., p. 16.

[11] Lafer, op. cit., p. 16-17.

[12] Lafer, op. cit., p. 17.

[13] Lafer, op. cit., p. 17.

[14] Lafer, op. cit., p. 18.

[15] Lafer, op. cit., p. 18.

[16] Lafer, op. cit., p. 19.

[17] Lafer, op. cit., p. 20-22.

[18] n. que cita Gustavo Zagrebelsky.

[19] n. que cita Robert Alexy.

[20] n. que cita Miguel Reale e a referência que ele fazia às n.tas objetivas de todo valor: realizabilidade e inexauribilidade.

[21] n. que cita Man.el Gonçalves Ferreira Filho.

[22] n. que volta a citar Zagrebelsky e a otimização apregoada por Alexy.

[23] n. que cita Hannah Arendt.

[24] Lafer, op. cit., p. 21-22.

[25] Lafer, A reconstrução dos direitos human.s: um diálogo com o pensamento de Hannah Arendt, São Paulo, 1988, p. 8.

[26] A especificação das garantias e direitos expressos na Constituição não exclui outras garantias e direitos não enumerados, mas resultantes da forma de govern. que ela estabelece e dos princípios que consigna.”.

[27] “The enumeration in the Constitution, of certain rights, shall n.t be construed to deny or disparage others retained by the people.”.

[28] Barbalho, Constituição federal brasileira, Brasília, 1992, p. 344.

[29] Lafer, A Constituição de 1988 e as relações internacionais, cit., p. 13.

[30] Lafer, A Constituição de 1988 e as relações internacionais, cit., p. 14.

[31] Lafer, A Constituição de 1988 e as relações internacionais, cit., p. 17.

[32] Ponte de Miranda, Comentários à Constituição de 1967, com a Emenda n. 1, de 1969, tomo 3, 2 edição, São Paulo, 1970, p. 142.

[33] Rezek, Direito internacional público, 6 edição, São Paulo, 1996, p. 83.

[34] Lafer, A Constituição de 1988 e as relações internacionais, cit., p. 17.

[35] Lafer, A Constituição de 1988 e as relações internacionais, cit., p. 16. O Ministro Moreira Alves cogitou neste mesmo sentido ao votar n. Recurso em Habeas Corpus n. 79.785-7/RJ, Relator o Ministro Sepúlveda Pertence, julgado em 29 de março de 2000.

[36] Manifestações do Ministro Moreira Alves n. Recurso em Habeas Corpus n. 79.785-7/RJ, Relator o Ministro Sepúlveda Pertence, julgado em 29 de março de 2000, e do Ministro Celso de Mello n. Habeas Corpus n. 87.585-8/TO, Relator o Ministro Marco Aurélio, julgado em 03 de dezembro de 2008 (com citação de Celso Lafer).

[37] Lafer, A Constituição de 1988 e as relações internacionais, cit., p. 16-18. Por sua vez, Anna Cândida da Cunha Ferraz defende posição diversa, argumentando que emenda constitucional não pode “retroagir para alcançar fatos ou situações pretéritas, ferindo o direito fundamental à segurança em qualquer dos seus significados, porquanto isso importaria em criar um caos jurídico insuportável ante uma Constituição suprema e rígida” (Ferraz, Os tratados e as convenções internacionais de direitos human.s anteriores à Emenda Constitucional n. 45/2004, in Revista Mestrado em Direito (UNIFIEO), vol. 7, n. 1, 2007, p. 131).

[38] Habeas Corpus n. 87.585-8/TO, Relator o Ministro Marco Aurélio, Recurso Extraordinário n. 349.703-1/RS, Relator para o Acórdão o Ministro Gilmar Mendes e Recurso Extraordinário n. 466.343-1/SP, Relator o Ministro Cezar Peluso, todos julgados em 03 de dezembro de 2008.

[39] “Os tratados e as convenções internacionais revogam ou modificam a legislação tributária interna, e serão observados pela que lhes sobrevenha.”.

[40] Que faz as vezes, em nível constitucional, do art. 98 do Código Tributário Nacional.

[41] n.te-se que, n. caso francês, o bloco de constitucionalidade é constituído, em larga medida, justamente, por n.rmas relativas a direitos, inclusive a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789 (Favoreu, Droit constitutionnel, 4 edição, Paris, 2001, p. 117-118).

[42] A argumentação de Celso Lafer também me faz modificar antigo entendimento pessoal sobre o assunto (Amaral Júnior, Tratados n. ordenamento jurídico brasileiro, in Revista de estudos tributários, n. 5, Editora Síntese, 1999, p. 18-31).

[43] Ferreira Filho, Direitos human.s fundamentais, 11 edição, São Paulo, 2009, p. 103-104.

[44] Lafer, A Constituição de 1988 e as relações internacionais, cit., p. 19.

[45] Man.el Gonçalves Ferreira Filho recomenda “ter consciência de que a multiplicação de direitos ‘fundamentais’ vulgariza e desvaloriza a idéia.” E acrescenta: “Philip Alston chama atenção, em interessante artigo, para isso. Assinala a tendência da ONU e de outros corpos internacionais de proclamarem, a torto e a direito, direitos ‘fundamentais’, sem critério objetivo algum. E registra n.vos direitos em vias de serem solenemente declarados fundamentais – direito ao turismo, direito ao desarmamento – afora já propostos – direito ao son., direito de não ser morto em guerra, direito de não ser sujeito a trabalho aborrecido, direito à co-existência com a natureza, direito de livremente experimentar modos de viver alternativos etc.” (Ferreira Filho, Direitos human.s fundamentais, cit., p. 67-68).

[46] Lafer, A Constituição de 1988 e as relações internacionais, cit., p. 21-22.

[47] Lafer, A reconstrução dos direitos human.s, cit., p. 8.

[48] Lafer, A Constituição de 1988 e as relações internacionais, cit., p. 22.

[49] Tocqueville, A democracia na América, 4 edição, Belo Horizonte, 1998, p. 175.

[50] Lafer, A Constituição de 1988 e as relações internacionais, cit., p. 29.

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